A arquitetura da ordem internacional erigida no pós-Guerra Fria — alicerçada em pactos multilaterais, mecanismos de cooperação e na primazia da diplomacia — encontra-se sob inequívoca pressão. Os conflitos recentes, bem como aqueles que se anunciam no horizonte, evidenciam uma inflexão relevante na maneira como as grandes potências interpretam história, soberania e legitimidade do uso da força.
A incursão russa na região de Donbass, no contexto da guerra na Ucrânia, é emblemática dessa reconfiguração. Moscou sustenta sua ação em fundamentos históricos, culturais e linguísticos. O Donbass integrou, por séculos, o Império Russo e, posteriormente, a União Soviética, circunstância que consolidou uma identidade majoritariamente russófona, além de densos vínculos sociais, econômicos e culturais com a Federação Russa. À luz dessa leitura, o Kremlin apresenta sua intervenção como explicável e legitimável — ainda que essa narrativa seja rechaçada por grande parcela da comunidade internacional.
No extremo oriental do globo, a China acompanha atentamente os desdobramentos do conflito ucraniano. A questão de Taiwan, considerada um dos principais focos de tensão geopolítica do século XXI, obedece a uma lógica argumentativa análoga. As relações entre Taiwan e a China continental são seculares, mas a cisão política aconteceu em 1949, ao término da Guerra Civil Chinesa. Para Pequim, tal separação configura uma disrupção histórica a ser sanada, e não uma controvérsia territorial ordinária.
A seletividade na evocação do passado também se manifesta na atuação dos Estados Unidos no cenário internacional. Ao longo do século XX, com especial intensidade entre as décadas de 1970 e 1980, Washington realizou investimentos expressivos na Venezuela, sobretudo no setor petrolífero, exercendo influência direta sobre sua economia e sua política energética. Com a ascensão do chavismo e da chamada Revolução Bolivariana, essas relações foram abruptamente redefinidas, e a presença norte-americana passou a ser abertamente contestada.
Além da dimensão econômica, a história das relações entre Estados Unidos e Venezuela é marcada por intervenções diretas e indiretas, tentativas de desestabilização institucional, sanções econômicas e operações de pressão diplomática que, segundo o governo venezuelano, configuram uma forma contemporânea de invasão e violação de soberania. Episódios como o apoio a movimentos oposicionistas e a ingerência em processos políticos internos reforçam a percepção, em Caracas, de que a política externa norte-americana não hesita em recorrer a mecanismos coercitivos para preservar seus interesses estratégicos na região.
O elemento comum a esses episódios é a substituição gradual da diplomacia clássica por estratégias belicistas legitimadas por narrativas históricas. O passado, antes objeto de análise e reflexão, converte-se em instrumento de poder. O risco inerente a essa dinâmica é patente: quando Estados passam a reinterpretar a história para respaldar ambições territoriais ou estratégicas, o sistema internacional ingressa em um ciclo de instabilidade crônica.
Assiste-se, assim, à reemergência da força como linguagem privilegiada da política externa. Em um mundo profundamente interconectado, no qual conflitos regionais produzem repercussões globais imediatas, essa inflexão não ameaça apenas governos ou fronteiras, mas a própria segurança coletiva da humanidade.
José Osmir Bertazzoni – Advogado e jornalista.