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GESTÃO URBANA E O IMPACTO DAS CHUVAS: QUANDO O TEMPO SE TORNA O SENHOR DA RAZÃO

Publicada em: 31/01/2026 19:39 -

Foto: Maycon Sacchi

A última semana de janeiro de 2026 ficará marcada na memória de nossa cidade não apenas pelos registros pluviométricos, mas pela dor. Em apenas 40 minutos, Piracicaba foi castigada por cerca de 70 milímetros de chuva, volume capaz de arrancar placas de asfalto na Avenida Armando de Salles Oliveira e transformar nossas principais vias em rios intransitáveis. Mais do que danos materiais e carros submersos, enfrentamos o luto: Cristiano Gonçalves, de 53 anos perdeu a vida, tragicamente afogado, ao tentar salvar sua motocicleta na Avenida 31 de Março.

Uma chuva dessa magnitude nos obriga a olhar para o passado para entender a gravidade do presente. O que vimos nestes últimos dias não ocorria com tal fúria desde a década de 90. É impossível não recordar a trágica manhã de 20 de outubro de 1995. Naquela ocasião, uma tempestade tropical com ventos de 126 km/h e granizo, também em cerca de 40 minutos, deixou 80 mil pessoas sem água e luz, feriu 35 e ceifou a vida da jovem Karina Tavares Ferreira, de apenas 12 anos, após o desabamento de um muro em Santa Terezinha.

Entretanto, ao analisarmos os desastres de hoje, precisamos questionar as escolhas feitas por aqueles que geriram nosso espaço urbano recentemente. O tempo é, de fato, o senhor da razão, e ele agora cobra o preço de decisões contestáveis da gestão Luciano Almeida.

Em setembro de 2023, sob o pretexto de uma "remodelação", a administração anterior retirou árvores da Praça Antônio de Pádua Dutra (a Praça do Guerra), no Centro, para a criação de vagas de estacionamento. O que foi vendido como modernização e conveniência para o comércio, revelou-se uma tragédia anunciada. Ao substituir o solo permeável e a cobertura vegetal por asfalto e concreto em áreas críticas, o poder público ignorou os avisos da natureza.

Retirar árvores em uma cidade que sofre com ondas de calor e inundações cíclicas não é gestão; é falta de visão estratégica. Quando impermeabilizamos o coração da cidade, estamos apenas acelerando a velocidade com que a água chega às avenidas baixas, como a Armando de Salles Oliveira e a 31 de março.

O asfalto arrancado e a vida perdida nesta semana são reflexos de um planejamento urbano que priorizou o automóvel em detrimento da segurança ambiental. A natureza não esquece e o clima não perdoa a negligência. Piracicaba precisa, urgentemente, retomar o caminho do desenvolvimento sustentável e do respeito aos seus recursos naturais, sob o risco de continuarmos revivendo, década após década, as mesmas tragédias.

Por Danilo Telles

 

CEO e Diretor do Grupo Metropolitana de Piracicaba

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