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O DIVÓRCIO ENTRE O CONGRESSO E O POVO BRASILEIRO

Publicada em: 01/05/2026 16:39 -

 

 

A democracia é, em sua essência, o governo do povo. Mas o que acontece quando aqueles que deveriam representar a vontade popular decidem agir em causa própria ou em benefício de projetos de poder que flertam com o retrocesso? O que vimos em Brasília neste dia 30 de abril de 2026 foi mais um capítulo melancólico de uma política que parece ter perdido o contato com a realidade das ruas e com o desejo de justiça da maioria dos brasileiros.

A derrubada do veto ao chamado "PL da Dosimetria" não é apenas uma derrota técnica para o governo atual; é um tapa na face de quem acredita que o crime e o ataque às instituições devem ter consequências reais. Ao manobrar para reduzir penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro, o Congresso Nacional, sob a influência da extrema-direita e o oportunismo do Centrão, envia uma mensagem perigosa: a de que as leis podem ser moldadas conforme a conveniência política do momento.

O sentimento de insatisfação que corre o Brasil não é infundado. Enquanto o cidadão comum enfrenta a inflação, a insegurança e um sistema jurídico que muitas vezes é implacável com os pequenos, os parlamentares se articulam para criar uma espécie de "anistia branca". Sob o pretexto de "ajustar penas", o que se faz é pavimentar o caminho para a impunidade de figuras centrais, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, e centenas de outros envolvidos em tentativas de desestabilização do Estado Democrático de Direito.

A estratégia utilizada pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, ao "fatiar" a votação para evitar que criminosos comuns também fossem beneficiados, revela a natureza seletiva dessa urgência legislativa. Por que o empenho em abrandar penas para crimes contra a democracia é maior do que a vontade de aprovar leis que melhorem efetivamente a vida do brasileiro?

A resposta é dolorosa, mas necessária: o sistema político atual está viciado. Muitos dos que hoje ocupam cadeiras no Senado e na Câmara parecem mais preocupados em proteger aliados e preparar terreno para futuras eleições do que em honrar o mandato que lhes foi conferido.

A importância de mudar os políticos que hoje estão no poder nunca foi tão latente. Não se trata apenas de alternância partidária, mas de uma renovação moral e ética. Precisamos de representantes que entendam que a Constituição não é um rascunho a ser alterado para salvar correligionários. O Brasil clama por um Congresso que olhe para frente, que priorize o desenvolvimento e a integridade das instituições, e não por um que utilize seu poder para apagar as manchas de um passado recente de ataques à democracia.                                      

Se a classe política atual se recusa a ouvir o clamor por justiça e seriedade, cabe ao eleitor, o verdadeiro detentor do poder, utilizar a ferramenta mais poderosa que possui: o voto consciente. O Congresso que temos hoje é reflexo de nossas escolhas, e a mudança real só virá quando decidirmos que a impunidade e o privilégio político não têm mais lugar no Brasil que queremos construir.

 

Por Danilo Telles, jornalista, diretor e CEO do Grupo Metropolitana de Comunicação de Piracicaba.

 

 

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